quinta-feira, 29 de julho de 2021

Vos estis sal terra |

 Vos estis sal terra |

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Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.

Suposto, pois, que, ou o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar; que se há-de fazer a este sal, e que se há-de fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não salga? Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus (Mateus V – 13). Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer, é lançá-lo fora como inútil, para que seja pisado por todos. Quem se atreverá a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça, que o pregador que ensina e faz o que deve; assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.(...)" 

"Sermão de Santo António aos Peixes"

Padre António Vieira

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Avante que ninguém fica limpo

Num país, como Portugal, com um atraso estrutural dantesco em termos de cultura política não é de estranhar, mas é de lamentar, a existência de uma organização política com significativa força eleitoral como o Partido Comunista Português (PCP), que ainda governa 20 câmaras e possui, junto com o seu apêndice PEV, 12 deputados na Assembleia da República. A raiz de todo o mal reside aqui.

Gozando do beneplácito de muita comunicação social, ora militante ora ignorante, prossegue impunemente a sua patética luta pela “ditadura do proletariado” em pleno século XXI… A presunção de que representa o “povo”, embora este na sua grande maioria teime em não se fazer representar pelo PCP em sucessivos atos eleitorais, junto com uma ridícula “superioridade moral” que acredita ser ungido justifica que em plena calamidade se considere no direito de realizar um Festival de Música mascarado de “Festa Política” para açambarcar gulosamente avultados lucros financeiros. Em suma, um Partido anticapitalista doentiamente obcecado em capitalizar lucros, mesmo que isso implique um elevado risco para a saúde pública do mesmo “povo” por quem diz lutar e que se considera representar. 

A trama conta com a cumplicidade manhosa do Governo socialista – em troca de voto favorável no próximo orçamento de Estado? – que, finório, finge não ter nada a ver com a realização do dito Festival disfarçado de “Festa Política” deixando tacitamente o PCP isolado na obstinação da realização do certame quando efetivamente é cúmplice da concretização de um Festival de Música onde se vende bilhetes sem controle, independentemente das “restrições” que o mesmo permitiu que a Direção Geral da Saúde, com a cautela e o respeitinho que se deve ter com um amigo do patrão, fizesse. 

A prepotência com que o Partido Comunista Português impõe ao país e aos portugueses a realização deste Festival de Música na presente situação de calamidade é a prova acabada do comportamento mais abjeto e sujo que já assisti em política nas últimas décadas. É demasiado repugnante para ser verdade, mas é verdade. E tem dois responsáveis. Um ativo: Partido Comunista, que vai abocanhar as receitas do certame. Um passivo: Partido Socialista, que sabe que um favor, político ou não, cobra-se sempre.  

Para compor o ramalhete restam os artistas que, sem qualquer pudor, aceitaram participar no Festival. A vergonha que resta ao PCP e ao PS não sobra para os ditos. Se participar num Festival onde se exaltam ditaduras e assassinos é por si algo de miserável, participar naquilo em situação de calamidade é ainda mais reles. Moral da história: quando se brinca na lama ninguém fica limpo. 

Por Colin Marques in “Diário do Distrito” (05/09/2020)


domingo, 28 de junho de 2020

Intervenção na Assembleia Municipal de Palmela (26/06/2020) sobre uma saudação apresentada para o Dia do Orgulho LGBTI

Por princípio, entendo que não devemos ter orgulho ou vergonha por aquilo que não podemos escolher ou que não seja revelador dos nossos méritos, realizações ou talentos individuais e coletivos.
Todavia, neste caso [Dia do Orgulho LGBTI], abro uma exceção por entender que a forma como foi vilipendiada e humilhada a comunidade LGBTI ao longo de séculos é justificável que celebre publicamente e com orgulho a sua orientação sexual sem constrangimentos de qualquer tipo de ordem. Basta que recordemos a história recente, por exemplo, no Reino Unido – a mais antiga democracia plena europeia – a prática de atos homossexuais foi considerada crime até 1967. 
Entendo que em nenhuma sociedade contemporânea se possa considerar aceitável que uma parte dos seus membros possa ser humilhada pelos restantes. Deste modo, votarei favoravelmente a saudação apresentada, embora o faça a título individual e não em nome da Coligação Palmela Mais (PSD/CDS), uma vez que em matéria de consciência individual não deve ser imposto nenhum sentido de voto coletivo.
Tenho dito.
Colin Mateus Marques (Membro da Assembleia Municipal de Palmela eleito pela Coligação Palmela Mais)

domingo, 21 de junho de 2020

Paulo Ribeiro: um líder que se candidata

Quando olhamos para o panorama político local, sobretudo para os cargos da vereação autárquica em Palmela, o cenário é pavoroso. Um Executivo dominado pela CDU que apenas se distingue por aquela arrogância que caracteriza quem não tem qualquer ideia de governação para o concelho mas que pela ortodoxia intrínseca se considera predestinada a governar por uma alegada superioridade moral que lhes meteram na cabeça ser real. Depois temos o PS, igual a si próprio, no papel de sacristão zeloso da governação comunista, orgulhoso por contribuir para o Executivo com o vereador com pelouros mais mal preparado que é possível conceber. A compor o ramalhete está ainda o MIM, com a sua infinita boa vontade para fazer algumas coisas, que ainda não identificaram. No meio de tudo isto sobra Paulo Ribeiro, o único que destoa deste, digamos assim…, contexto.
E é sobre Paulo Ribeiro que importa deter atenção. O Vereador da Coligação PSD-CDS na Câmara Municipal de Palmela anunciou a sua candidatura à presidência da Distrital de Setúbal do Partido Social Democrata, o que configura uma excelente oportunidade para o PSD. E também para Palmela, que pode colocar um autarca local na direção de uma das mais importantes estruturas políticas do Distrito.
Paulo Ribeiro é um político com um fantástico potencial. É dotado de uma inteligência claramente acima de média da classe política, mesmo a nível nacional – basta que recordemos os debates autárquicos de 2013 e de 2017 que se concluíram com a humilhação intelectual dos seus oponentes. Tem uma capacidade raciocínio rápido que concilia com uma oratória notável, que nunca deixa de surpreender pela acutilância. 
É afável e humilde. Nunca o ouvi começar uma frase pelo pronome pessoal “eu”. É uma pessoa com quem é fácil simpatizar e confiar. Tem uma capacidade de trabalho impressionante, consegue conciliar uma carreira profissional multifacetada com as suas exigentes responsabilidades familiares e ainda com a difícil, mas dignificante, tarefa de ser a única oposição à governação comunista em Palmela.
A candidatura de Paulo Ribeiro é um reflexo do próprio candidato. Agregadora de múltiplas sensibilidades internas do Partido que consegue federar. Afirma-se pela positiva, trata com responsabilidade e respeito a candidatura do seu adversário, Pedro Filipe Tomás, com quem já afirmou publicamente contar para os desafios autárquicos que se avizinham contra os verdadeiros adversários do Partido, o PS e a CDU. Pretende unir e não dividir, como se espera de um líder. E Paulo Ribeiro é um líder, um líder que se candidata e não um candidato a líder, feliz do partido que pode contar com um líder assim.
Todavia, o sucesso ou a possibilidade de sucesso de uns resulta na inveja e no revanchismo de outros. Esse é o preço do sucesso. Que ainda se torna mais evidente quando este sucesso é público. Por isso, o exercício de cargos políticos mesmo bem-sucedido não consegue escapar ao vilipêndio, geralmente boçal.
Perante este cenário, recorro a John Wilmot para deixar um estímulo reconfortante a Paulo Ribeiro. O Conde de Rochester escreveu que “na vida há dois tipos de pessoas que nos odeiam: os estúpidos e os invejosos. Com os primeiros não nos devemos preocupar porque a determinada altura se esquecem de nos odiar. Quanto aos segundos, é diferente, estes nunca vão deixar de nos odiar.” E é com isso que Paulo Ribeiro vai ter necessariamente de aprender a viver.

Por Colin Mateus Marques in “Diário do Distrito” (13/06/2020)

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Saudades do capitalismo

Apesar de ter o privilégio de continuar a trabalhar, embora num cenário diferente do habitual, normal e desejável, sinto a falta da vivência em normalidade numa sociedade livre que a economia de mercado nos proporciona. Em suma, tenho saudades do capitalismo.

Sinto saudades daquelas pequenas coisas, mas muito significativas, que o capitalismo nos proporciona, que até aqui dávamos como totalmente adquiridas, e que perdemos. Mesmo que temporariamente, mas perdemos. Por exemplo, só aqui em Palmela, perdemos o prazer de ir almoçar ou jantar fora num dos excelentes restaurantes da Vila, da Lagoinha, da Quinta do Anjo e do Pinhal Novo. Perdemos o prazer de dar uma volta aos concelhos vizinhos de Setúbal, Montijo ou Barreiro para usufruir dos respetivos centros comerciais, onde podemos comprar tudo o que gostamos, desde livros a roupas, entre muitas outras coisas. Também o pequeno prazer de tomar um café, num dos ora excelentes, ora acolhedores, ora típicos, cafés do concelho perdemos. Até desfrutar do lindíssimo castelo de Palmela, do seu café e da sua pousada, perdemos. E isso contribui para uma abatimento coletivo que só a responsabilidade de nos mantermos vivos nos faz suportar.

Esta suspensão do normal funcionamento do sistema capitalista transmite-nos a impressão, terrivelmente real, de vivermos num sistema comunista. A memória da vivência das populações dos países da Europa de Leste que depois da II Grande Guerra caíram desgraçadamente sob o jugo da, felizmente, extinta URSS é um cenário que facilmente nos assalta neste momento de abatimento coletivo. A presença do medo, agora do vírus antes do aparelho totalitário e repressivo do Estado. A inexistência da possibilidade de ir comer a um restaurante ou fazer compras num centro comercial. A impossibilidade de circular livremente, a pé ou de carro, por onde e para onde quisermos. As filas de pessoas para entrada em estabelecimentos que vendem bens de primeira necessidade. A sociabilização limitada ou proibida. A desconfiança social generalizada. A miséria económica que se avizinha para aqueles que não trabalham para o Estado. Tudo isto e ainda mais nos remete para uma parcial reedição daquilo que Álvaro Cunhal designava de “sol da terra” e que os libertos das grilhetas do fanatismo ideológico doentio designam de ditadura comunista.

Se alguma coisa verdadeiramente pedagógica esta pandemia nos ensinou foi o que é viver num sistema comunista. Nunca se esqueçam desta lição. Eu não me vou esquecer.

Por Colin Mateus Marques ("Diário do Distrito", 12/04/2020).

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Eu escolho um Líder!

Antes de mais, afasto taxativamente a jactância de que a minha posição sobre quem deve ser o próximo líder do PSD possa influenciar o que quer que seja ou quem quer que seja. Vale o que vale, é a minha posição e sinto-me confortável com ela.
Basicamente, aquilo que os militantes (com cotas em dia, em qualquer lugar de Portugal exceto na Madeira) do PSD vão escolher no próximo sábado (18/1) é se querem ter a dirigir o PSD um Chefe ou um Líder. Assim, simples. É isto o que está em jogo: uma chefia forte ou uma liderança agregadora.
 A escolha em si mesma revela, desde logo e de forma cabal, que em Portugal quase 45 anos depois das primeiras eleições livres ainda não foi consolidada uma efetiva cultura democrática. Esta pergunta não se colocaria, por exemplo, em Inglaterra, na Holanda, na Dinamarca ou na Finlândia, países cuja cultura democrática é a única que os seus habitantes conhecem, concebem ou compreendem.
Num país com uma verdadeira cultura política democrática não há lugar para um Chefe. É isso o que distingue a maioria das democracias liberais europeias de democracias iliberais como a da Rússia, dirigida por um Chefe (Vladimir Putin).
Infelizmente, para o PSD e para o País, os 45 anos de ditadura recente deixaram um legado cultural que demorará muito mais de 45 anos a remover do nosso subconsciente coletivo. É, portanto, e acima de tudo, uma escolha de cultura democrática que esta eleição para a presidência do PSD representa.
Um chefe inclui e exclui porque é o único que decide e toma sozinho as decisões, a sua chefia emana do cargo que exerce e nada resta aos dirigidos senão obedecer, porque "quem discorda estruturalmente do partido, obviamente que deve sair", (Rui Rio, 7/8/2018). Por sua vez, um líder apenas inclui porque, portador de uma cultura democrática, percebe que o seu poder vem dos que por ele são liderados e não do cargo que ocupa. “Estou aqui para unir o PSD, respeitando a diversidade de pensamento dentro do PSD. Unir não significa obrigar todos a pensarem da mesma forma e muito menos significa mandar pela porta fora aqueles que pensam diferente de nós”, (Luís Montenegro, 5/1/2020).
Nascido depois das primeiras eleições livres, a única cultura política que conheço e aceito é a democrática. Assim, não tenho a mais singela dúvida na escolha entre um Chefe e um Líder. Escolho um Líder! E o único dos dois candidatos a Presidente do PSD que tem perfil, cultura e temperamento para ser um Líder é Luís Montenegro.




Por Colin Mateus Marques (Facebook, 14/01/2020)

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Combatentes do Ultramar merecem um Memorial em Palmela

Na última Assembleia Municipal, realizada a 27 de junho, a Coligação Palmela Mais, por iniciativa o PSD, propôs ao Executivo camarário homenagear de forma pública e dignificante o esforço de guerra dos militares do Concelho que participaram na Guerra do Ultramar, que decorreu entre 1961 e 1975, com a construção de um Memorial num espaço público com visibilidade.
A proposta foi chumbada pela CDU e com as abstenções do PS, do Bloco e do MIM. Em suma, a iniciativa para a construção de um Memorial num local visível para fazer justiça e reconhecer o esforço dos combatentes do Concelho caiu por terra, tendo apenas sido votada favoravelmente pelo PSD e CDS.
Fica portanto registado para memória futura que os antigos combatentes da Guerra do Ultramar não têm um monumento com as características de um Memorial, isto é, algo que chama a atenção e é para sempre memorável, no Concelho porque a CDU, o PS, o Bloco e o MIM não o deixaram.
A propósito do feito, um membro eleito da CDU na Assembleia Municipal colocou a apreensiva questão: “um memorial seria para homenagear que combatentes?” À qual acrescentou uma inquietação: “mas lutaram combatentes de ambos os lados!” E ficamos esclarecidos quanto ao sentido de voto do Partido Comunista Português…
É nosso entendimento que, volvidos cerca de 44 anos do término do conflito, nas suas várias frentes de batalha, importa agora e antes que seja demasiado tarde, ou seja, enquanto ainda temos um número significativo de antigos combatentes com vida e saúde, ultrapassar preconceitos ideológicos e unir esforços focados naquilo que é verdadeiramente importante: homenagear os militares do Concelho que combateram na Guerra do Ultramar, respondendo a um esforço extraordinário que naqueles longos anos Portugal lhes pediu.
Que fique claro, embora não tenhamos ilusões que alguns não compreenderão ora por preconceito ideológico ora por disciplina partidária, que este Memorial não pretende ser uma homenagem à Guerra do Ultramar nem às motivações políticas e ideológicas daquela, mas repor justiça aos militares de Palmela que participaram no conflito, na sua esmagadora maioria sem qualquer ligação de simpatia com o regime salazarista e marcelista. Palmela deve-lhes isto. Contudo, compreendemos que muitos dos que conseguiram escapar à participação na Guerra, sobretudo indo viver ilegalmente para outros países ou ficando por cá na clandestinidade revolucionária, se possam sentir incomodados com esta homenagem.
Não obstante, é justo que não desistamos de homenagear que não desistiu de combater. E concordamos com Gabriel García Márquez quando sentenciou que “a memória elimina as coisas más e amplia as coisas boas, e que graças a esse artifício conseguimos suportar o peso do passado.”

Por Colin Mateus Marques (Jornal do Concelho de Palmela, 04/07/2019)

domingo, 31 de março de 2019

Todos são livres para pensar… como eu!

As últimas semanas foram ricas em intolerância e sectarismo. O líder do PSD no Distrito de Setúbal, Bruno Vitorino, decidiu numa publicação do Facebook, mostrar publicamente a sua indignação por o Agrupamento de Escolas de Santo André (Barreiro) ter promovido uma “visita de estudo” ao Auditório da Escola 2/3 da Quinta da Lomba de alunos do 6º e 8º ano com o objetivo de “promover a igualdade de género” e “sensibilizar os alunos para diferentes orientações sexuais”. A sessão foi ministrada por uma Associação LGBTI e teve um custo de 50 cêntimos por aluno.
A manifestação de uma opinião contrária à posição defendida pelos organizadores do “evento”, algo que seria perfeitamente corriqueiro numa democracia normal, rapidamente deu azo a que uma turba fanatizada ideologicamente se insurgisse com violência, perseguição e ameaças diversas para com o autor da crítica àquilo que se designa por ideologia de género e que de acordo com o entendimento de parte muito significativa da esquerda portuguesa não é nem pode ser objeto de qualquer tipo de crítica. A coisa acabou mesmo por levar duas deputadas do Bloco de Esquerda, Joana Mortágua e outra que não me lembro o nome, a apresentar queixa contra Bruno Vitorino na Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG).
Vamos por partes. O que é afinal a ideologia de género? Basicamente trata-se de uma ideologia e não de uma ciência que opina que uma pessoa não pertence ao sexo a que corresponde (masculino ou feminino) mas antes do “género” que decide pertencer, sendo que esta identidade de género não é condicionada pelas características do corpo, concretamente os órgãos sexuais.
A ideologia de género brota do marxismo, que depois da derrota copiosa na economia, nesta sua nova roupagem, elege como alvo a família e elementos caracterizadores da masculinidade e feminilidade, as bases tradicionais da família. A este respeito, recordo uma anterior e bem-sucedida censura no verão de 2017, também com queixas na CIG, contra a Porto Editora por esta ter publicados blocos de atividades para crianças dos 4 aos 6 anos, com a particularidade de um ser destinado a meninos (com uma capa azul!) e outro a meninas (com uma capa rosa!). Já antes, em abril de 2016, o Bloco de Esquerda tinha iniciado uma “intifada” cá no burgo pela mudança de nome do Cartão de Cidadão para Cartão de Cidadania, pelo mesmo motivo. 
Uma vez que a ideologia de género é uma ideologia situada na área da extrema-esquerda marxista procura impor-se de forma totalitária na sociedade, aliás, a única forma que conhece e concebe de controlo e dominação social. Devagar, contando com a desatenção dos mais distraídos, vai conseguindo este objetivo. Quem se recorda de anúncios televisivos passados na década de 90 e início da década passada protagonizados por modelos como Soraia Chaves (Vodafone), Marisa Cruz (revista Maxmen), Joana Freitas (TV Cabo) e o inesquecível anúncio das garrafas plumas da GALP carregadas por uma modelo que despejava sensualidade feminina? Já se perguntaram por que já não se fazem anúncios destes? O totalitarismo da ideologia de género não os permite, da mesma maneira que também não permite livros com atividades distintas para meninos e meninas.
A concretização dos objetivos da ideologia de género passa necessariamente pela doutrinação dos alunos (quanto mais novos melhor) nas escolas para a criação já do não do clássico marxista “homem novo” mas sim da “pessoa nova”, para isso “visitas de estudo” como a do Agrupamento de Escolas no Barreiro são imprescindíveis.
Pelo exposto, considero que Bruno Vitorino esteve muito bem, agindo com coragem em defesa da Democracia perante esta nova e dissimulada forma de totalitarismo.

Por Colin Mateus Marques (Diário do Distrito, 30/03/2019)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Julgar uma campanha política pequenina é um dever cívico

Voltaire sentenciou que “a política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano.” Ocorreu-me este pensamento deste brilhante filósofo que a França ofereceu à humanidade – embora muitos não tenham aprendido nada com ele como já se vai perceber – quando assisti à campanha protagonizada pelo Partido Socialista (PS) em Palmela ao longo dos cinco dias da Festa das Vindimas.
Os socialistas de Palmela alugaram um espaço (stand) com a finalidade de servir como palco de toda a elegância, decoro e elevação política que tanto os une como os galvaniza. O que conseguiram com estrondoso êxito. Ninguém que por lá passou e assistiu ao espectáculo pacóvio exibido ininterruptamente naquele palco pode ter ficado indiferente à triste figura que vários dirigentes socialistas do concelho e do distrito protagonizaram.
Passo a explicar em que consistiu a performance socialista, isto é, da “Alternativa de Confiança”, como sem pudor se intitulam. Ignoro a autoria da ideia, mas, dada a infantilidade da coisa, não é difícil atribuir a façanha à Juventude Socialista de Palmela. O espectáculo consistiu em convidar os transeuntes a atirar uma bola de borracha contra umas latas empinadas em forma de triângulo decoradas com as caras de Pedro Passos Coelho e de alguns dos seus ministros (entre os quais constava o… Presidente da República, o que dada a ignorância oceânica que por ali andava não causa pasmo…) com o objectivo de as derrubar – simbolizando o derrube efectivo do Governo. Quem conseguisse a proeza era premiado com um chapéu vermelho de papel com o símbolo do punho fechado dos socialistas, uma régua e um jornal de campanha. Foram vários, sobretudo crianças mas também adultos infantilizados, que obtiveram sucesso. Embora para o efeito não seja alheio o facto de não haver limite para as tentativas. Não posso deixar de notar que, em jeito de cereja no topo do bolo, a coreografia do espectáculo era encimada por uma faixa com o slogan “é tempo de confiança”…
A coisa fosse da exclusividade dos jotinhas de “Confiança” compreendia a boçalidade do espectáculo. O que verdadeiramente me surpreendeu foi ver dirigentes e autarcas como Raul Manuel Cristóvão, Maria Natividade Coelho ou Pedro Taleço se deixarem cobrir de ridículo e participarem com um entusiasmo de crianças no espectáculo, atirando bolas e ganhando chapéus, além de incentivar outros a fazer o mesmo.
Depois percebi que o povo está coberto de razão quando defende que o “exemplo deve vir de cima”. A própria líder distrital e número um da lista da “Alternativa de Confiança” pelo Distrito, Ana Catarina Mendes, também participou com uma alegria de menina e lá atirou a sua bolinha e ganhou o seu chapeuzinho. 

Esta maneira pequenina de fazer política merece ser julgada nas urnas. Espero que assim seja em nome do decoro e da elevação que se deseja na vida pública e política de um país europeu moderno e civilizado. 
"Diário da Região" (23/09/2015)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Numa noite angustiante, quase desesperada, de incertezas profissionais e por consequência pessoais e familiares, um refúgio nos livros levou-me a este fabuloso excerto de Marco Aurélio.

“Tudo o que acontece, acontece justamente. Vê-lo-ás se observares com justeza. Não digo tão-somente segundo a relação de sequência, mas outrossim segundo a justiça, é como se alguém distribuísse as sortes ma proporção do mérito. Contínua portanto a observar, como começaste, e, faças o que fizeres, fá-lo com o intuito de seres um homem de bem, consoante a ideia específica que é corrente sobre o que seja um homem de bem. Põe a salvo esta ideia em tudo o que empreenderes.”

Marco Aurélio (in Pensamentos).

Compreendido. 

quarta-feira, 19 de março de 2014

Homens de certezas

Charles Bukowsky, poeta e romancista norte-americano, vaticinava em meados do século XX que: “o problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas cheias de certezas”. Um pensamento intemporal.

Para nossa desgraça, vivemos numa época de crise económica e financeira que, com maior ou menor veemência, fustiga a generalidade dos países desenvolvidos sem que ninguém, independentemente do seu conhecimento e capacidade intelectual, possa com honestidade se considerar detentor do antídoto para a sua cura.

Todavia, mesmo nesta conjuntura de incerteza, existem pessoas com responsabilidades políticas que estão cheias de certezas. Uma delas é Jerónimo de Sousa – um homem que não permite que qualquer dúvida assalte as suas certezas, sempre e para sempre inabaláveis.

Jerónimo de Sousa tem a certeza do que levou à crise: “consequência da ofensiva da política de direita que se vinha desenvolvendo contra Abril e as suas conquistas”. E como é que ele possui esse conhecimento? Directamente de Álvaro Cunhal, apóstolo de Lenine e Estaline, de quem é discípulo, que em 1980 com “premonitória visão” antecipou a crise de 2008! E sem dúvidas, apenas certezas.

As certezas de Jerónimo de Sousa expressam-se com maior clareza falando barato. Os culpados da crise são os “ideólogos do neoliberalismo” e o “capitalismo”. E a salvação passa por uma “política patriótica e de esquerda”, evidentemente preconizada por ele próprio e pela seita que dirige. Isto é, Jerónimo de Sousa não tem qualquer dúvida que conseguirá ser o único caso de sucesso do modelo comunista da história da humanidade. Para o efeito, ou seja, para alcançar o “sol na terra”, seria apenas necessário que os portugueses ensandecessem e passassem a partilhar idêntica certeza…

As pessoas cheias de certezas geralmente partilham uma retórica demagógica, básica e vulgar, que se expressa por um vocabulário truculento que não se distingue pela elevação nem pelo decoro. Jerónimo de Sousa evidentemente não foge à regra. Por exemplo, Passos Coelho é um “fiteiro empertigado”; Cavaco Silva não tem “seriedade nem ética”; a maioria PSD/CDS uns “grandes mentirosos”; o FMI um “buldogue” que apanha “um pouco de pele e não larga mais”. Mas, esta retórica faz eco na comunicação social que não se cansa de a amplificar repetidamente, como que procurando a adesão a estas certezas da população portuguesa que mais sente as consequências da crise.  

Estes homens cheios de certezas num país com uma população informada e esclarecida seriam, quando a sua presença não fosse evitável, tratados com aquele sorriso educado que se reserva aos tontos ou com o repúdio que se reserva aos fanáticos. Infelizmente, em Portugal, existe um “mercado” de seguidores destas certezas que permanece mais ou menos coeso e, pior, com potencialidade de crescimento em épocas como a que atravessamos. E isto não pode deixar de causar preocupação. Homens que só têm certezas são perigosos fanáticos cujas iniciativas acabam invariavelmente em totalitarismos sanguinários.

Como ensinou Bertrand Russell: “essas pessoas só serão inofensivas enquanto forem em pequeno número”. Deus queira que assim continue.

sábado, 24 de julho de 2010

Mudar

O Espelho do Corisco vai dar lugar a um novo blogue, deste vez temático. Encerra assim esta experiência na blogosfera. Enormes afazeres profissionais combinados com a pouca vontade de manter um blogue desta índole sozinho ditam a suspensão definitiva deste blogue que entretanto fica activo até serem salvaguardados os seus conteúdos. Um até breve em novo endereço.

domingo, 20 de junho de 2010

O Último Adeus (Honoré de Balzac)

“O Último Adeus” (1830) do escritor conservador (e, como um verdadeiro conservador, trabalhador, consta que escrevia 15 horas por dia!) Honoré de Balzac (1779-1850) é um excelente romance histórico que se lê de uma penada – a edição de bolso da Europa-América tem 80 páginas e um tamanho de letra gigantesco que facilita o devorar da leitura.
Escritor do seu tempo e figura de proa do romantismo francês, Honoré de Balzac oferece-nos neste romance um retrato realista (que tanto caracteriza o romantismo do século XIX) da derrocada de Napoleão e da debandada do seu exército depois da fatídica invasão da Rússia. A prosa chega mesmo a ser chocante pela sua desmesurada crueza:
“O heroísmo destas tropas generosas ia mostrar-se inútil. Os soldados que afluíam em massa às margens do Beresina vinham encontrar, por desgraça, essa imensidão de carros, de caixas, de móveis de toda a espécie, que o exército tivera de abandonar ao efectuar a travessia do rio nos dias 27 e 28 de Novembro [de 1812]. Herdeiros de riquezas inesperadas, esses desgraçados, endurecidos pelo frio, instalavam-se nos bivaques vazios, partiam o material do exército para construírem cabanas, acendiam fogueiras com tudo o que lhes vinha às mãos, despedaçavam os cavalos para se alimentarem das suas entranhas, arrancavam as cortinas ou as capotas dos carros para se cobrirem, e ficavam-se a dormir, em vez de continuarem o caminho e transporem, durante a noite, esse Beresina que uma incrível fatalidade tornara já tão funesto para o exército.
A apatia desses pobres soldados não a podem compreender senão os que se lembram de terem atravessado esses vastos desertos de neve sem poderem beber outra coisa que não fosse a própria neve, sem outra cama além da neve, sem outra perspectiva além do horizonte de neve, sem outro alimento que não fosse a neve ainda ou algumas beterrabas geladas e uns punhados de farinhas ou carne de cavalo. Mortos de fome, de sede, de cansaço e de sono, esses infelizes chegavam à praia onde se lhes deparava madeira, lume, alimentação, inúmeros carros abandonados, bivaques, enfim, toda uma cidade improvisada.”
(p. 28/29).
A história trata de um amor impossível, entre o barão Philippe de Sucy e a condessa Stéphanie de Vandières, iniciado no tumulto desumano da guerra e mais tarde reencontrado, embora marcado com as chagas abertas pela mesma. Philippe tenta então resgatar o garnde amor da sua vida das trevas da loucura. Esta nobre e romântica atitude produziu resultados e teve consequências. Vale a pena ler para saber qual foi o preço que o barão de Sucy pagou pelo seu amor incondicional a Stéphanie.

terça-feira, 15 de junho de 2010

terça-feira, 8 de junho de 2010

O problema está na causa...

Não existe um comboio (ou outra coisa qualquer que se atulhe com activistas) humanitário em auxílio da causa curda? Soldados turcos matam quatro militantes curdos Internacional TVI24 Porque é que a causa palestiniana aparece no Ocidente como causa global e a causa curda não? Activistas humanitários precisam-se no Curdistão!

Coisas do Corisco

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Mais um passo de gigante a caminho do socialismo…

Esta medida estúpida e socialista (porque pretende que todos cortem a meta mais ao menos ao mesmo tempo) de que os alunos com mais de 15 anos possam passar do 8º ano para o 10º ano fazendo apenas os exames do 9º ano não vale apenas pela sua burrice “igualitária” que encerra, mas pela porta que abre ao facilitismo que serão os exames do 9º ano no futuro.

domingo, 6 de junho de 2010

Um pouco de bom senso também é bom

Não tenho nenhum gosto em defender o Primeiro-ministro, mas, tal como ele, também concordo que é criminoso manter escolas a funcionar com menos de 20 alunos. Na política deve haver bom senso. E é de um elementar bom senso apoiar esta lúcida decisão do ministério da Educação, porque não existe bom senso em exigir o controlo da despesa pública e defender em simultâneo a continuação do funcionamento de escolas com este número de alunos.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Grande povo...

Estes resultados da OCDE não revelam apenas o fracasso das nossas políticas educativas, Escolaridade média dos portugueses é a segunda pior da OCDE - Educação - PUBLICO.PT , mas sim o nosso fracasso enquanto povo. Povo que não se esforçou para se qualificar (muito mais de metade dos portugueses são iletrados) e não aproveitou a Escola enquanto fonte de saber e de educação funcionando como alavanca de ascensão social. Pelo contrário, descurou da disciplina e da exigência e impôs o facilitismo à política que, por demagogia e vergonha das nossas comparações com outras democracias, cedeu. Por isso, fique registado que mesmo estes miseráveis resultados devem-se muito mais ao facilitismo no ensino do que propriamente ao mérito dos alunos. Agora, face a estes números da OCDE resta-nos aligeirar ainda mais o facilitismo nas escolas (Sócrates até já anunciou que os alunos com mais de 15 anos podem passar do 8º para o 10º ano com apenas uns exames do 9º ano, conseguindo deste modo anular por despacho o chumbo de um ano lectivo) e continuar a apostar na magia quantitativa das Novas Oportunidades. Bem disse Medina Carreira que hoje o diploma substitui o saber. Contudo, mesmo a distribuir diplomas somos maus.

Canguru PCP

Heloísa Apolónia, enquanto líder de uma “força política” chamada PEV, não deveria sentar-se na primeira fila do hemiciclo no Parlamento? Mas não se senta. Afinal, o canguru PCP não transporta para todo o lado, isto é transporta para dentro (da AR) mas não lá dentro.

Vos estis sal terra |

 Vos estis sal terra | "I Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porq...