"A questão é saber se há pessoas honestas quando o interesse ou a paixão estão em jogo." Talleyrand.
terça-feira, 5 de maio de 2009
segunda-feira, 4 de maio de 2009
domingo, 3 de maio de 2009
Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
«Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.»
Lisboa, 25 de Junho de 1959
Jorge de Sena
sábado, 2 de maio de 2009
Um herói chamado Vital
Convidado por um dirigente sindicalista (da UGT) a comparecer nas manifestações do 1 de Maio, em Lisboa, declinei o convite. Para quem está pouco habituado a ver-se rodeado por tarados selvagens o ambiente seria certamente pesado em demasia. Que o diga Vital Moreira. Com anarquistas e comunistas não me junto nem que a Nossa Senhora de Fátima me aparecesse pela frente com a promessa de três novos segredos que garantissem a salvação do destino da humanidade. Sem sombra da Nossa Senhora, quem marcou presença foi a vulgaridade, aliás, extrema-esquerda e vulgaridade são duas faces da mesma moeda. Por isso não percebo a presença naquela concentração de dementes do único partido de esquerda moderno e civilizado que é o Partido Socialista. O civismo começa com a demarcação da falta de civismo. Claro que o resultado não podia ter sido outro senão insulto e a agressão. Contudo, gabo a coragem de Vital Moreira em estar junto de daquela gente sem sequer ter levado um capacete. Virgílio escreveu na Eneida que: “a sorte protege os audazes”. Vital conseguiu sair dali vivo e o eleitorado de centro (que é imenso) muito provavelmente não se irá esquecer deste acto heróico no momento de colocar a cruz no boletim de voto das eleições europeias. Com a esperteza e a oportunidade dos bravos, Vital não perdeu tempo e, ainda rodeado de bárbaros, recordou a Marinha Grande (onde Soares levou um murro em 1986). Grande herói.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Existe alguma diferença entre o socialismo e o parasitismo? José María Marco explica.
«El socialismo.... es la mejor manera que se conoce de que una mayoría viva sin trabajar, mientras una minoría –no tan pequeña, pero minoría al fin y al cabo– sigue esforzándose por crear empresas, trabajar y dar trabajo a los demás. Incluso está dispuesta a pagar los impuestos con tal de que le dejen hacer, más o menos, lo que quiere.
.... a menudo parece ser que los culpables de la crisis son esas mismas personas –empresarios, autónomos, gente con una vocación y empeño suficiente para cumplirla– a las que una sociedad parasitaria está dispuesta a explotar con más cinismo aún que antes: más regulaciones, más deuda, más impuestos para los chivos expiatorios de una sociedad que no está dispuesta a cambiar sus costumbres.»
.... a menudo parece ser que los culpables de la crisis son esas mismas personas –empresarios, autónomos, gente con una vocación y empeño suficiente para cumplirla– a las que una sociedad parasitaria está dispuesta a explotar con más cinismo aún que antes: más regulaciones, más deuda, más impuestos para los chivos expiatorios de una sociedad que no está dispuesta a cambiar sus costumbres.»
José María Marco no Libertad Digital (24-4-2009)
E que tal um dia pelos "Deveres dos Trabalhadores"?
Se o 1 de Maio é o “Dia do Trabalhador”, coisa que a esquerda converteu no “Dia dos Direitos dos Trabalhadores”, talvez o 2 de Maio devesse ser o “Dia do Empregador”, onde quem dirige empregados e cria emprego pudesse reclamar pelos deveres dos trabalhadores, ou seja, o “Dia dos Deveres dos Trabalhadores”. Tendo em conta a produtividade existente a ideia é capaz de não ser totalmente descabida.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Coisas do Corisco
«Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo deapertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem. A noite era quente e calma e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença, aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos. Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci. Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão. Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite. Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama te esperar. Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do seu corpo. Só assim, livrar-me-ei de ti, mosquito Filho da Puta!» Carlos Drumond de Andrade.
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